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Com falta de tradutores e intérpretes de Libras na Unipampa, docentes surdo(a)s relatam exaustão

Atualizado: 14 de abr. de 2022

13 de abril de 2022


Imagem: Reprodução


Problema de falta de tradutores e intérpretes de Língua Brasileira de Sinais se estende há quase uma década na Unipampa e denuncia uma realidade de frustração e cansaço, além dos prejuízos acadêmicos.

Na Unipampa, são dez o(a)s docentes surdo(a)s para um universo de onze tradutores e intérpretes de língua de sinais (TILS). Apesar de parecer uma quantidade razoável para a condução das aulas e demais atividades, essa conta não fecha no dia a dia do(a)s professore(a)s. Isso porque, na verdade, são necessários dois intérpretes por docente, para revezar nas aulas, participar de atividades, palestras, acompanhar nas aulas de Tempo Comunidade da Educação do Campo, entre outras.


Além disso, os campi Dom Pedrito, Jaguarão, Uruguaiana e São Borja estão atualmente sem tradutores e intérpretes, pois desses onze, ao menos dois estão lotados na Reitoria e dois disponibilizados para as atividades remotas, um deles está em licença e os demais estão distribuídos nos outros cinco campi.


“Na minha opinião seriam dois para cada campus, um só é muito cansativo”, comenta a professora dos cursos licenciatura em Educação do Campo e Ciências da Natureza, Paula Maiane, do campus Dom Pedrito. Docente surda e mestranda em Ensino na Unipampa, Paula relata um cotidiano bastante difícil desde que chegou na instituição, há três anos.


“Na formação de professore(a)s surdo(a)s, há um ano, participamos da live no youtube e quando eu cheguei não tinha intérprete. Que prejuízo! Aí os surdos ficam cansados, reclamam, é bem difícil, imagina formação dos nossos professores e acontecer isso”, relata.


A falta de intérprete e de organização da universidade fez Paula perder a sua banca de qualificação. “Na apresentação da minha banca ela foi anulada, cancelada, porque não tinha intérprete. Fomos até a Ouvidoria, acionamos o Ministério Público. Então eu tive esse prejuízo porque não tinha acessibilidade”, conta.


Com a ajuda da orientadora, Paula remarcou a qualificação para março deste ano e finalmente conseguiu fazer sua apresentação. “Foi um alívio quando terminou tudo isso. Não é fácil, a gente luta diariamente. Vamos ver agora como vai ser o presencial do mestrado, a luta novamente”.


Prejuízos causados por falta de intérprete atingem professor(a) e aluno(a)

O caso de Paula não é isolado. A falta de intérprete de Libras em alguns campi gera uma dinâmica que afeta toda a universidade, uma vez que é preciso deslocar constantemente profissionais para a tradução, correndo o risco de não conseguir, por coincidir dias e horários. De um jeito ou de outro, sempre há falta deste profissional.


Como resultado dessa realidade, são relatados casos de afastamento por depressão fruto da exaustão e frustração pela instabilidade no cotidiano acadêmico. Além do cansaço dos próprios tradutores e intérpretes, com uma dinâmica de rotatividade e de trabalho que o(a)s sobrecarrega.


Essa realidade se estende ao longo de quase uma década. O campus Uruguaiana, por exemplo, está há cerca de oito anos sem intérprete e em São Borja há seis anos. Mais recentemente, a intérprete que estava lotada em Dom Pedrito, foi transferida para o campus de Santana do Livramento, através de um processo por remoção de saúde.


Assim como docentes e profissionais TILS, o(a)s aluno(a)s também sofrem com essa realidade. Nas aulas práticas, comenta Paula, a docente consegue conduzir a aula, pois é o momento em que o(a)s aluno(a)s ouvintes e não ouvintes praticam a língua de sinais. No entanto, nas aulas teóricas é fundamental a presença de intérprete para o conhecimento sobre a história do(a)s surdo(a)s, das normas da língua, entre outras coisas.


A professora Cássia Virgínio da Silva, do campus Caçapava do Sul, comenta que no campus em que dá aula não tem muitos problemas, pois há intérprete. Mas em Bagé, onde fez o mestrado, “foi um problema”, diz. “Quando eu comecei o mestrado em 2019 era presencial e havia apenas uma intérprete. Depois chegou a pandemia e veio esse período mais difícil pois as atividades eram remotas e a demanda muito grande, então às vezes faltava intérprete". Cássia comenta que na fase de orientação para a dissertação, após a conclusão do período de aulas, teve o apoio permanente de uma tradutora, "ainda assim havia só uma, era muito cansativo para ela".


Cássia foi a primeira pessoa surda a ingressar no mestrado na Unipampa. Quando iniciou o curso, em 2019, ela era a única estudante surda na turma. Antes dela, não havia sequer um edital com a garantia de acessibilidade.


“Eu expliquei como eram as regras de um edital, que não é só vaga para deficiência, teria que colocar acessibilidade para cada tipo, tem que ser diferente”, explica. “No momento da edição do edital do mestrado, esclareci todas as dúvidas a partir do que eu tinha visto de outros editais, aí eles começaram a preparar, então tinha intérprete na seleção”.


Em relação à prova de proficiência, por exemplo, Cássia pontuou para a Comissão Organizadora, à época, que a segunda língua para pessoas surdas é o português e a primeira é a língua de sinais. “Não precisa ser língua de outros países”. Durante o processo seletivo deu tudo certo, até que começaram as aulas.


“Aí fui fazer o mestrado, dois anos, sofri bastante quando faltava intérprete, nas atividades, nas avaliações, para fazer os trabalhos, foi difícil”. Na tentativa de resolver o problema, a irmã de Cássia a ajudava interpretando em algumas atividades acadêmicas.


Sem respostas, docentes aguardam por novas contratações de TILS

Docentes do campus Dom Pedrito afirmam ter feito pedido de contratação de intérprete, mas não tiveram retorno da Reitoria. Tampouco sabem informar se há previsão para novos processos seletivos. Além disso, explicam que a tendência é que o modo de contratação desse profissional não seja mais por concurso, mas via terceirização.


Retorno presencial e a realidade para professore(a)s surdo(a)s

No dia 25 de abril as aulas serão retomadas presencialmente na Unipampa. Além dos desafios para o(a)s demais docentes e estudantes em relação às incertezas sobre distribuição de EPI’s, salas amplas e autotestes de Covid-19, surdos e surdas na Unipampa têm especificidades importantes de serem pontuadas.


O uso da máscara, por exemplo, é um fator impeditivo para a visualização da expressão facial. Apesar da instituição não ter levantado a questão para debate e apresentado alternativas, o(a)s professore(a)s discutem a possibilidade do uso da viseira de acrílico, mas ainda não sabem dizer como vai ser esse retorno para ele(a)s diante das obrigatoriedades de cuidado sanitário e da não menção a estas questões nos protocolos de retorno presencial.


A docente Paula Maiane relata que com o retorno das aulas presenciais do Curso de Educação do Campo, tem contado com apoio de sua colega de curso, que é fluente em Libras, para condução de atividades de Tempo Universidade e de Tempo Comunidade. E destaca que essa é uma situação desconfortável, porque não seria a função da docente que lhe dá apoio de forma solidária.


O orçamento da Unipampa para 2022 ainda não foi divulgado. Às vésperas do retorno presencial pouco se sabe sobre como a verba será distribuída e utilizada para a manutenção da universidade.


Sesunipampa se solidariza

A diretora da Sesunipampa, Suzana Cavalheiro de Jesus, comentou que na última Assembleia do sindicato, no dia 16 de março, foram expostos os desafios enfrentados pelo(a)s docentes. Além disso, “destacaram a organização de um documento encaminhado à Gestão Superior que especificava entraves ao ensino da LIBRAS devido ao uso de máscaras, bem como a possibilidade de utilização do escudo facial de acrílico”.


O tema é bastante importante, pois, “além da questão da estrutura gramatical da Libras e da importância da expressão facial para este ensino, os colegas mencionaram o fato de que a ausência de intérpretes acaba exigindo daqueles que conseguem fazer leitura labial, a visualização dos rostos dos estudantes”. Suzana ressalta que “surdos usuários de língua de sinais não se percebem como pessoas com deficiência, não reconhecem processos de oralização e se colocam no mundo como pertencentes a uma cultura distinta, como um grupo social que possui língua própria”.


Para a diretora, “é um conjunto de elementos bastante complexo que a Unipampa precisa enfrentar. Não há como negar o direito dessas e desses docentes à acessibilidade, em todos os seus aspectos”. Ainda afirma que a Sesunipampa se coloca solidária nesta luta. "Buscamos incluir o serviço de intérpretes nas nossas assembleias e estamos estreitando diálogos com docentes surdo(a)s para que possamos buscar soluções de fato inclusivas e equitativas. É uma pauta que vem sendo consolidada há algum tempo no âmbito do Sindicato Nacional e que nos desafia a executá-la, agora, em nível local, no alcance da seção sindical desta instituição”.


A entrevista realizada com as docentes Cássia Virgínio e Paula Maiane e as falas em aspas aqui inseridas foram transcritas através da fala da intérprete Angélica Preto.


Assessoria Sesunipampa


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