Precariedades dos Restaurantes Universitários (RUs), evasão e baixo ingresso
- assessoriasesunipa
- há 24 horas
- 11 min de leitura
Após mais de um ano da crise que interrompeu o funcionamento dos Restaurantes Universitários (RUs) em diferentes campi da Unipampa, o debate sobre a alimentação estudantil permanece atual. Apesar da retomada do serviço e da construção de propostas para aperfeiçoar o modelo de gestão, estudantes, docentes e técnicos seguem apontando desafios que ultrapassam a oferta de refeições e alcançam um tema mais amplo: a permanência estudantil.
Nos últimos meses, discussões promovidas em diferentes espaços da universidade reforçaram o papel estratégico dos Restaurantes Universitários na assistência estudantil. Além de garantir segurança alimentar, o acesso às refeições está diretamente ligado às condições para que estudantes, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica, ingressem, permaneçam e concluam seus cursos. Em um cenário de preocupação com evasão e baixo ingresso, a comunidade acadêmica defende que fortalecer essa política também significa fortalecer a universidade pública.
Os Restaurantes Universitários são reconhecidos como uma das principais políticas de permanência nas universidades federais brasileiras. Ao garantir refeições subsidiadas, contribuem para reduzir desigualdades e ampliar as condições para que estudantes permaneçam na graduação. No entanto, tão importante quanto a oferta de refeições é a forma como esse serviço é organizado. O modelo de terceirização integral adotado por diversas universidades federais, entre elas a Unipampa, tem ampliado o debate sobre os limites da gestão privada de uma política pública diretamente vinculada à permanência estudantil.
Para o professor Caiuá Cardoso Al-Alam, do Campus Jaguarão, compreender o funcionamento dos Restaurantes Universitários exige analisar também o modelo de gestão adotado pela universidade. Segundo ele “as universidades apostaram em um sistema baseado na terceirização total, não apenas da mão de obra, mas também da gestão e da produção das refeições. Esse é um modelo em que o Estado abre mão de uma tarefa fundamental de assistência social e, no caso das universidades, de assistência estudantil, que é essencial para garantir a permanência dos estudantes. A Unipampa é um projeto popular, presente em cidades que possuem altos índices de vulnerabilidade social. Por isso, nossos estudantes necessitam de uma política de assistência estudantil estruturada. O problema é que o modelo terceirizado adotado nos Restaurantes Universitários da Unipampa se mostra muito frágil diante dos desafios que enfrentamos. Isso acontece porque ele parte do princípio de que empresas privadas, que naturalmente têm interesse em obter lucro, participem das licitações e assumam não apenas a gestão, mas também a produção da alimentação dos estudantes. Uma empresa participa de um processo licitatório porque espera obter retorno financeiro.”
A discussão sobre alternativas ao modelo atual ganhou força durante a plenária realizada em março deste ano, no Campus Jaguarão. O encontro reuniu estudantes e servidores para debater o futuro dos Restaurantes Universitários e resultou na defesa de um modelo misto de gestão, no qual a universidade assuma a administração do serviço e a terceirização fique restrita à execução operacional.
Para Caiuá, esse modelo faz com que a continuidade do serviço passe a depender da viabilidade econômica das empresas contratadas, e não exclusivamente das necessidades da política pública. Nesse contexto, ele afirma que “A assistência estudantil não deve ser um espaço de geração de lucro. Pelo contrário, os Restaurantes Universitários fazem parte de uma política pública que deve garantir aos estudantes as condições necessárias para permanecer na universidade e concluir sua formação. Quando essas empresas assumem os contratos, frequentemente alegam que o número de refeições servidas é insuficiente para garantir a rentabilidade do serviço. Diante disso, afirmam que não conseguem manter a operação e acabam desistindo dos contratos. Esse processo cria um círculo vicioso: as empresas abandonam os Restaurantes Universitários, o serviço é interrompido e a universidade precisa iniciar um novo processo licitatório, que é burocrático e demorado.”
Se, por um lado, a discussão sobre os Restaurantes Universitários questiona a sustentabilidade do modelo atual, por outro ela também revela um desafio maior enfrentado pela Unipampa: a redução no número de ingressantes. Dados do Núcleo de Inteligência de Dados Acadêmicos (NIDA) mostram que, em 2026, a universidade registrou 1.925 ingressantes, o menor resultado da série histórica iniciada em 2020. Em comparação com 2025, quando foram contabilizados 2.628 novos estudantes, a instituição perdeu mais de 700 ingressantes em apenas um ano. O cenário reacendeu discussões sobre o fortalecimento de políticas capazes de garantir não apenas o acesso ao ensino superior, mas também a permanência estudantil.
As diferenças entre os campi reforçam esse desafio. Em 2026, Bagé recebeu 306 novos estudantes, seguido por Santana do Livramento (283) e Uruguaiana (274). Já Jaguarão registrou 89 ingressantes, enquanto São Gabriel e Caçapava do Sul contabilizaram 75 e 63 estudantes, respectivamente. As diferenças ajudam a compreender por que uma universidade presente em dez municípios, muitos deles localizados em regiões de fronteira, convive com demandas distintas em relação à assistência estudantil.
Gráfico 1 - Número de ingressantes por ano e forma de ingresso

Fonte: Dados do Núcleo de Inteligência de Dados Acadêmicos (NIDA).
Gráfico 2 - Número de ingressantes por campus em 2026

Fonte: Dados do Núcleo de Inteligência de Dados Acadêmicos (NIDA).
Nesse contexto, os Restaurantes Universitários deixam de representar apenas um serviço de alimentação. Em uma universidade criada para ampliar o acesso ao ensino superior público no interior do Rio Grande do Sul, políticas de assistência estudantil tornam-se parte das condições necessárias para garantir que estudantes ingressem, permaneçam e concluam sua formação. É justamente a partir dessa perspectiva que o modelo de gestão dos RUs passou a ocupar um lugar central nas discussões sobre o futuro da assistência estudantil na Unipampa.
Se os dados ajudam a dimensionar os desafios enfrentados pela universidade, é na rotina dos estudantes que os impactos da ausência dos Restaurantes Universitários se tornam mais evidentes. Em campi onde o serviço permanece interrompido, a alimentação influencia diretamente a organização da vida acadêmica, os custos de permanência e até a decisão de continuar na graduação.
Andyara Menezes da Rocha, estudante do curso de geologia no campus Caçapava do Sul afirma que a falta do Restaurante Universitário interfere diretamente na permanência estudantil e na qualidade da vida acadêmica. “Como aluna que já passou por períodos com o RU fechado e funcionando mais de uma vez, posso dizer que realmente não ter o restaurante afeta a rotina acadêmica de forma muito significativa. A gente fica mais cansado, precisa dedicar mais tempo para cozinhar ou gastar com alimentação fora da universidade. Muitas vezes temos que sair da faculdade para almoçar, quando poderíamos comer no RU e seguir para as aulas da tarde. No nosso curso ainda existem as atividades de campo. A gente chega cansado e, quando o Restaurante Universitário funcionava, essa parte da rotina era muito mais tranquila. Sem ele, além do desgaste, tem a questão financeira. Em Caçapava do Sul a alimentação é cara, principalmente para quem veio de outra cidade. Também tem o problema do deslocamento. Os horários de ônibus não ajudam, os lugares próximos da universidade são poucos e, em geral, mais caros. Tudo isso acaba tirando tempo, dinheiro e energia que poderiam estar sendo dedicados aos estudos.”
Além dos impactos no cotidiano, a estudante avalia que o fechamento do restaurante ocorreu sem um planejamento que garantisse alternativas para atender os estudantes durante o período das obras. Segundo ela, a comunidade acadêmica buscou construir soluções coletivas, mas elas não conseguiram suprir a ausência prolongada do serviço.
"A gente não recebeu muitas explicações além de que os contratos estavam sendo verificados e que a obra estava sendo fiscalizada. A reforma era necessária, mas poderiam ter sido pensadas alternativas antes do fechamento do RU. No ano passado, quando o restaurante fechou pela primeira vez, conseguimos organizar uma cozinha comunitária, em que todo mundo se ajudava para fazer comida para quem precisava. Mas agora, com tantos meses sem o restaurante, isso deixou de ser uma solução viável. Eu acredito que ainda há tempo para pensar em formas de garantir essa alimentação, seja com convênios, descontos ou outras medidas. Os planos de permanência estudantil não podem deixar de considerar a alimentação como um pilar essencial. Eu vi alunos ingressarem na universidade e desistirem do curso por causa das dificuldades relacionadas à falta do RU. Quem chega de outra cidade sente isso ainda mais. Permanecer na universidade depende também de ter acesso a uma alimentação acessível."

A preocupação com a permanência estudantil também aparece nos indicadores institucionais da universidade. Dados do Painel da Assistência Estudantil no site da Unipampa mostram que, entre 2021 e 2024, a instituição registrou 12,5 mil ocorrências de evasão, considerando diferentes formas de desligamento da vida acadêmica. Entre as categorias mais frequentes estão o abandono, o cancelamento de matrícula e o desligamento. Os números reforçam que garantir a permanência dos estudantes continua sendo um dos principais desafios enfrentados pela universidade.
Se os indicadores de evasão revelam os desafios da permanência estudantil, os dados dos Restaurantes Universitários mostram a dimensão de uma das principais políticas voltadas para enfrentá-los. Em 2024, os RUs da Unipampa serviram mais de 545.956 refeições à comunidade acadêmica, demonstrando que a política de alimentação estudantil alcança milhares de estudantes ao longo do ano e constitui um dos principais instrumentos de permanência na universidade.
Para o professor Giuseppe Betino de Toni, do Campus Caçapava do Sul, esses números dialogam diretamente com a realidade vivida pela comunidade acadêmica. Segundo ele, a ausência do Restaurante Universitário desorganiza toda a rotina dos estudantes e compromete não apenas a alimentação, mas também as condições de estudo e permanência.
"O fechamento do RU altera radicalmente a rotina dos estudantes e, por consequência, da comunidade acadêmica como um todo. Sem o restaurante, os estudantes que têm aula pela manhã e também à tarde precisam escolher entre almoçar em restaurantes próximos ao campus, o que é inviável para a maioria; voltar para casa para cozinhar e comer, comprometendo completamente a rotina de estudos entre um turno e outro; ou trazer marmitas, o que exige uma organização adicional fora da universidade e reduz o tempo disponível para estudar e realizar as atividades das disciplinas. Independentemente da alternativa encontrada, há prejuízo na rotina de estudos, na assiduidade e até na pontualidade em sala de aula. Além da alimentação, toda a rotina vai por água abaixo e, com ela, os estudos, o aprendizado, a formação de qualidade e tudo aquilo pelo qual lutamos dentro da universidade."
O docente também avalia que a situação poderia ter sido enfrentada de outra forma. Embora reconheça a necessidade das obras no Restaurante Universitário, ele afirma que houve tempo suficiente para planejar medidas capazes de reduzir os impactos sobre os estudantes durante o período de fechamento.
"A reforma era necessária e todos nós sabíamos disso. Essa obra estava prevista há bastante tempo e o fechamento do restaurante foi planejado para o final do semestre. O que não é satisfatório é a ausência de alternativas para garantir a alimentação dos estudantes durante esse período. Havia tempo para construir soluções. A direção do campus chegou a apresentar a possibilidade de fornecer refeições por meio de marmitas produzidas em uma cozinha alternativa, mas a proposta não avançou. A universidade optou apenas por converter o auxílio alimentação em recurso financeiro e deixou muitos estudantes, principalmente aqueles que não recebem assistência estudantil, sem qualquer alternativa. No primeiro semestre do ano passado, quando ficamos cerca de dois meses sem Restaurante Universitário por causa da interrupção do contrato, aproximadamente 25% da turma do Sistema Terra deixou de frequentar as aulas de forma gradual. Nós, professores, somos constantemente cobrados pelos índices de evasão, mas falar em permanência estudantil sem garantir alimentação acessível significa muito pouco. A alimentação é uma das condições básicas para que o estudante consiga permanecer na universidade."

Enquanto estudantes e docentes relatam os impactos da interrupção do serviço, um Grupo de Trabalho (GT) instituído por portaria da Unipampa no âmbito do Conselho Universitário (Consuni), também discute alternativas para o futuro dos Restaurantes Universitários. Entre as propostas apresentadas está o parecer elaborado pela comissão do Campus Jaguarão, que defende a substituição do atual modelo de terceirização integral por um sistema de gestão mista. A comissão argumenta que a assistência estudantil não pode depender exclusivamente da lógica de mercado. O modelo atualmente adotado pela Unipampa torna o funcionamento dos Restaurantes Universitários vulnerável às dificuldades financeiras das empresas contratadas, o que favorece interrupções do serviço e sucessivos processos de licitação. Para o grupo, esse formato se mostra especialmente frágil em campi com menor número de estudantes, onde a operação tende a ser menos atrativa para empresas privadas.
A proposta apresentada prevê que a universidade assuma a gestão dos Restaurantes Universitários, ficando responsável pela compra dos alimentos, pela infraestrutura e pela fiscalização dos contratos, enquanto a empresa terceirizada ficaria encarregada apenas da contratação das equipes de cozinha e da execução operacional do serviço. Segundo a proposta esse modelo reduziria a dependência da continuidade dos contratos, ampliaria o controle institucional sobre a qualidade da alimentação e diminuiria os custos relacionados à margem de lucro das empresas terceirizadas. Propõe que cada campus possa adotar soluções compatíveis com sua realidade. A comissão defende que unidades menores, como Jaguarão, necessitam de modelos diferentes daqueles utilizados em campi maiores, considerando o número de estudantes, as características regionais e a demanda por refeições. Entre as possibilidades apontadas estão a aquisição de alimentos da agricultura familiar e de pequenos produtores locais, além da ampliação gradual dos serviços oferecidos pelos Restaurantes Universitários.
Para o professor Caiuá Cardoso Al-Alam, um dos principais aprendizados deixados pela crise dos Restaurantes Universitários é que as soluções para a assistência estudantil precisam considerar as diferentes realidades dos campi da Unipampa. Na avaliação do docente, uma universidade multicampi exige modelos de gestão capazes de responder às especificidades de cada polo. "Atualmente, temos dez campi da Unipampa, cada um com realidades distintas, devido às comunidades em que estão inseridos, às microrregiões, mas também aos perfis de cursos que se estabeleceram em cada sede. É preciso construir modelos diferentes de Restaurantes Universitários para cada realidade de campus."
Para o presidente da Sesunipampa, Renatho José da Costa, a situação dos Restaurantes Universitários evidencia que a universidade precisa enfrentar não apenas os problemas imediatos relacionados aos contratos, mas também discutir se o modelo atualmente adotado ainda responde às necessidades dos diferentes campi. Segundo ele, a entidade acompanha o tema há vários anos e considera que as soluções implementadas até o momento não conseguiram resolver o problema de forma definitiva.
"Esse é um tema recorrente em todas as gestões da Sesunipampa. Temos acompanhado as políticas adotadas pela gestão superior no intuito de sanar as deficiências dos Restaurantes Universitários, mas não estamos vendo mudanças substanciais. Ainda em 2025, quando assumimos a direção do sindicato, levamos essa preocupação à Reitoria e alertamos para a necessidade de construir soluções urgentes, porque estamos tratando de algo que pode inviabilizar a permanência de estudantes em alguns campi. As soluções apresentadas até agora não conseguiram alcançar êxito. É notório que as propostas implementadas não estão surtindo o efeito esperado e, diante disso, precisamos buscar outras alternativas. Caso contrário, corremos o risco de inviabilizar completamente a permanência dos estudantes nos campi mais afetados."
Na avaliação dele, embora as dificuldades orçamentárias enfrentadas pelas universidades federais componham esse cenário, elas não explicam sozinhas a crise dos Restaurantes Universitários. A sucessão de empresas que assumem e deixam a gestão dos restaurantes demonstra que alguns campi exigem soluções diferentes das adotadas atualmente.
"Os cortes no orçamento das universidades geram impactos importantes, mas também não podemos deixar de apontar que o modelo de gestão dos Restaurantes Universitários não tem conseguido funcionar em alguns campi. Há uma sucessão de empresas que assumem os contratos e depois deixam o serviço. Talvez tenha chegado o momento de mudar esse modelo. Não entendemos que os campi tenham a responsabilidade de resolver esse problema administrativo, mas são justamente eles que vivenciam diariamente as consequências da interrupção dos Restaurantes Universitários e, por isso, podem apresentar propostas capazes de viabilizar seu funcionamento. A criação do Grupo de Trabalho é um passo importante, mas ele precisa contar com apoio da gestão superior e incorporar as contribuições construídas nos campi, porque insistir em um modelo que já demonstrou ser inviável para algumas realidades significa manter um problema que se tornou crônico."
As discussões reunidas ao longo dos últimos meses mostram que a crise dos Restaurantes Universitários deixou de ser apenas um problema de contratos ou de gestão administrativa. Ela passou a representar um debate sobre o próprio projeto de universidade defendido pela Unipampa. Mais do que reabrir restaurantes, os diferentes setores da comunidade acadêmica cobram soluções capazes de assegurar que a assistência estudantil acompanhe as necessidades de uma universidade multicampi, marcada por realidades distintas e desafios igualmente diversos.


Comentários